Em que medida a Guerra Fria 2.0 afeta seu negócio?
Este artigo tem como propósito conectar dois fatos recentes. O primeiro, de grande repercussão internacional; o segundo, também de alta relevância para o Brasil, mas que aparentemente não recebeu o devido destaque no setor corporativo brasileiro, em especial no agronegócio.
O texto também busca oferecer subsídio para profissionais da área de inteligência que atuam no setor corporativo, diante de um quadro de incertezas.
O primeiro fato refere-se ao pronunciamento do Primeiro-Ministro do Canadá, Mark J. Carney, ocorrido em 20/01/2026, durante o encontro anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos. O segundo fato refere-se à aprovação, pelo Congresso norte-americano, em 18/12/2025, do Intelligence Authorization Act for Fiscal Year 2026 (IAA 2026).
O vaso trincado
No tradicional encontro de Davos, que reúne líderes políticos, empresários, intelectuais e jornalistas para discutir desafios globais como economia, clima, tecnologia e geopolítica, Carney fez afirmações que merecem atenção especial de executivos brasileiros.
Uma dessas afirmações, particularmente relevante para profissionais que atuam em Inteligência de Negócios e Análise de Risco, ocorreu no contexto das disputas globais por energia, alimentos e minerais. Em tradução livre, Carney afirmou que se trata da “clássica gestão de risco.
Gestão de riscos vem com um preço, mas o custo da autonomia estratégica para tomar decisões, com soberania, também pode ser compartilhado, com investimentos coletivos e resiliência …”.
No contexto de seu discurso, ficou implícito que países menos poderosos, quando atuam coletivamente, ampliam o poder de barganha e reduzem suas vulnerabilidades em relação à submissão individual.
Desde quando há riscos do cenário nacional e internacional que não foram devidamente mapeados por suas equipes de negócio?
As fissuras no vaso
Não há como precisar quando o vaso começou a trincar. No entanto, a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, talvez marque o momento a partir do qual, com o suposto fim da Guerra Fria, muitos decisores e serviços de inteligência passaram a recalibrar suas análises.
Avançando no tempo, cita-se: o atentado terrorista de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas, frequentemente classificado como um “cisne negro” segundo a lógica de Nassim Taleb; a crise financeira de 2008; a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014; o Brexit; a ascensão econômica e geopolítica da China, associada ao conceito de debt trap diplomacy; a chegada da Inteligência Artificial; a crescente bipolarização política no Ocidente; os impactos da pandemia de COVID-19; a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, que dragou a Europa para o conflito; os conflitos latentes no Oriente Médio; as disputas por espaços marítimos no Mar do Sul da China; e a divulgação da National Security Strategy dos Estados Unidos da América (EUA), em novembro de 2025.
Em síntese, esses fatores foram, pouco a pouco, corroendo as estruturas do vaso, no qual flores de estabilidade e previsibilidade eram cultivadas.
Para quem atua em contrainteligência e se interessa por conceitos como Grey Zone (Zona Cinzenta) e Desordem Informacional (vide Contra & Inteligência, 2024), havia e ainda há múltiplos sinais de atrito crescente em um sistema multipolar frágil. Casos de espionagem estatal e corporativa, atos de sabotagens, como ruptura de cabos submarinos e o insolúvel caso de explosão do Nord Stream I e II, são exemplos concretos dessas microfissuras, sem falar nos crescentes números de ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas.
A captura de Nicolás Maduro trouxe à tona a discussão sobre um cambaleante Direito Internacional, mais um exemplo de que havia fraturas no vaso.
Por que o vaso quebrou?
Não é arriscado afirmar que o tema Groenlândia foi o sopro que catalisou tensões já acumuladas no sistema internacional. Davos, em meio às belezas dos Alpes suíços, foi o palco simbólico em que as flores perderam suas raízes.
Segundo Carney: “Let me be direct. We are in the midst of a rupture, not a transition”. Em tradução livre: não estamos em meio a uma transição, mas sim em meio a uma ruptura do sistema internacional moldado no pós-Segunda Guerra Mundial.
Ainda que suas palavras tenham soado, em certa medida, como uma contraposição do Canadá aos EUA, o Primeiro-Ministro deixou claro que chegou o momento de parar de negar a realidade. Ao tratar do hegemonismo, após recente visita à China, Carney deixou implícito que a potência hegemônica segue sendo os EUA, sem que isso descarte uma nova configuração de rivalidade sistêmica entre Washington e Pequim.
Carney utilizou uma frase clássica da diplomacia: “If we’re not at the table, we’re on the menu.” Para o setor corporativo, a derivação é direta: em meio a um terremoto geopolítico, sua empresa está sentada à mesa ou faz parte do menu?
Chamou a atenção o silêncio de Carney em relação à invasão russa sobre a Ucrânia, considerando o tácito apoio chinês às ações russas. Uma conclusão do discurso seria: a Organização das Nações Unidas (ONU) necessitaria fechar para balanço.
E o Brasil?
Brasília certamente acompanha com atenção os acontecimentos em Davos, bem como os possíveis desdobramentos do IAA 2026.
Embora os dois temas não tenham correlação direta, é possível identificar um ponto de convergência: a necessidade, destacada por Carney, de que potências médias se articulem diante de potências hegemônicas.
O Brasil é uma potência regional na América Latina e uma potência média no concerto das nações, não apenas pela pujança do agronegócio, mas também pelas reservas de minerais associados a terras raras, um fator crescente de disputas entre EUA e China.
Nesse contexto, o IAA 2026 disciplina as atividades da Comunidade de Inteligência dos EUA, coordenada pelo ODNI (Escritório do Diretor de Inteligência Nacional), estrutura composta por agências como CIA, NSA, DIA e ONI, que guarda similaridades com o SISBIN brasileiro. O documento estabelece diretrizes para a coleta de dados de inteligência com base em prioridades estratégicas, políticas, socioeconômicas e tecnológicas.
A partir de 2026, o agronegócio brasileiro passa a ser tratado como tema de inteligência estratégica para os EUA e não apenas como uma questão mercadológica de commodities.
Como destaca Marcos Degaut em seu artigo “O Brasil na mira: como a dependência econômica virou risco estratégico”1, o Brasil tornou-se um “ativo estratégico da segurança alimentar chinesa, em contexto no qual a China deixou de ser apenas um parceiro comercial do Brasil e passou a atuar como agente estruturante de cadeias críticas”, haja vista os investimentos chineses em setores de energia e portos brasileiros.
O Brasil, que até então não demonstrava ser alvo da inteligência norte-americana, pois não se configurava como um ator chave na “rivalidade entre grandes potências”, assumiu um papel estratégico, muito provavelmente “não como inimigo, mas como elemento funcional de disputa geoeconômica e geopolítica”, segundo o alerta de Degaut.
Conclusão parcial
Um bom Analista de Inteligência e de Contrainteligência não encerra o ciclo de coleta de dados após entregar o produto (conhecimento) ao decisor. O acompanhamento contínuo é parte essencial do processo da Atividade de Inteligência.
O pronunciamento de Carney expressa o posicionamento canadense, mas provavelmente ecoa em outros centros de poder. Ao mencionar China e Qatar como parceiros estratégicos, fica latente que países e empresas estão recalibrando seus posicionamentos.
O posterior pronunciamento do Presidente Donald Trump, em Davos, de que não pretende usar a força em relação à Groenlândia para conquistar seu objetivo político e o anúncio da criação do Board of Peace, não demonstram ser suficientes para recompor os cacos do vaso estilhaçado.
Para o Brasil, permanece a questão central nesse tabuleiro geopolítico: em que medida essa ruptura sistêmica representa fatores de força ou de fragilidade para os interesses estratégicos, sejam eles do campo interno ou do campo externo? A mesma indagação vale para o setor corporativo, onde empresas necessitam tomar decisões a fim de operarem em um ambiente de Guerra Fria 2.0?
Luis F. Baptistella é autor do livro Contra & Inteligência 4.0
Diretor da Bravus Consultoria | Contrainteligência Corporativa