NOTÍCIAS

O QUE MAIS HAVERÁ POR TRÁS DO PROGRAMA DE ESPIONAGEM DE RUSSOS COM IDENTIDADE DE BRASILEIROS?

O caso de “Victor Muller Ferreira”, um agente russo que teve a sua “legend” criada com base em uma ‘estória cobertura’ e em documentação de um brasileiro nato, o que lhe permitiu, inclusive, se passar por um brasileiro na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos da América (EUA), está no epicentro de um ousado programa russo de espionagem internacional.

Victor, cujo nome verdadeiro é Sergey Vladimirovich Cherkasov, fora deportado de volta ao Brasil por autoridades holandesas, em abril de 2022, quando tentava ingressar naquele país por ter se candidatado como estagiário no Tribunal Penal Internacional, o que supostamente lhe renderia acesso a informações estratégicas para a Rússia.

Essa ponta de iceberg foi anunciada, em junho de 2022, pelo site investigativo Bellingcat, que, horas depois de uma nota oficial do Serviço de Inteligência holandês, AIVD, na mesma data, apresentou uma extensa pesquisa em redes sociais com dados sobre a vida pregressa de “Victor”, no Brasil. Ficou relativamente evidente que, em junho de 2022, o Bellingcat havia tido acesso a algum tipo de material do AIVD sobre o assunto. [1]
Victor ou Sergey respondeu a processo instaurado no Brasil por falsidade documental e em questão de três meses depois de sua deportação, em julho de 2022, foi condenado a 15 anos de prisão pela 5ª Vara Federal de Guarulhos (SP), o que chama a atenção haja vista a rapidez deste julgamento e pena imposta.

Meses depois, em novembro de 2022, a imprensa internacional destacou o caso de mais dois russos, com documentação brasileira, que atuavam como agentes da inteligência russa e que haviam sido identificados. Um deles, um suposto cidadão goiano, havia sido preso na Noruega. O outro, residente no Rio de Janeiro, encontrava-se desaparecido, tendo sido noticiado que, muito provavelmente, prevendo ser desmascarado, o agente teria se juntado à sua companheira, uma russa que, por sua vez, operava na Grécia, possivelmente, também com um histórico falso de ser uma brasileira.

Até então, estava relativamente claro que, de acordo com as notícias veiculadas na mídia internacional, o Brasil estava sendo surpreendido com os casos desses russos identificados por serviços de inteligência estrangeiros.
Um dos aspectos que chamou a atenção na reportagem do jornal The New York Times (NYT), em seu artigo intitulado The Spy Factory [2], publicado em maio de 2025, que teve repercussão mundial, foi o detalhe de que a matéria nada citou sobre a origem desse tipo de operação russa de espionagem, conhecida como “illegals”, previamente noticiada pelo Bellingcat, quase três anos antes.

Importante ressaltar que, em 2010, as autoridades norte-americanas identificaram um programa semelhante a esse, em que russos se faziam passar por cidadãos norte-americanos, cuja operação, batizada de “Ghost Stories” pelo FBI, revelou uma rede de espionagem da ex-KGB que se infiltrara na sociedade americana. A história inspirou a série de TV The Americans, que retratou um casal de agentes soviéticos vivendo como uma família americana comum em Washington, DC.

A origem da operação de contrainteligência para identificar tais agentes [operatives] russos de nacionalidade brasileira tivera início antes de junho de 2022, como citado acima, possivelmente em uma operação conjunta da CIA e FBI com Agências de Inteligência europeias, provavelmente sem o prévio conhecimento das autoridades brasileiras de que o País estava sendo usado de maneira orquestrada como base operacional para a ‘exportação’ de espiões russos.

Outro detalhe da reportagem do NYT é que restou a dúvida se não teria ocorrido algum tipo de vazamento seletivo de informações, provenientes do próprio Brasil, sobre, então, os demais casos que a Polícia Federal brasileira teria começado a investigar, uma vez que outros russos foram identificados em condições semelhantes de utilização desta técnica de encobrir a verdadeira identidade.

Como consequência do teor da reportagem, mais dois questionamentos seriam razoáveis de serem feitos: teria ocorrido alguma intencionalidade de divulgar a reportagem justamente dias após a presença do Presidente do Brasil em Moscou para as comemorações militares da Segunda Guerra Mundial? A segunda indagação plausível seria relativa ao fato de que ficou patente que a reportagem do NYT suprimiu a informação de que o Brasil possui uma Agência de Inteligência, com atribuições oficiais de lidar com casos de espionagem patrocinada por atores estatais. Um jornal dessa envergadura, que se prestou a uma reportagem investigativa complexa, não se esqueceria de um detalhe relevante como este.

Logo após a reportagem do NYT, foi noticiado que uma Força-Tarefa da Polícia Federal brasileira contando com o apoio do FBI havia sido formada, a partir de 2024, para aprofundar as investigações.

Com a divulgação da reportagem do jornal Gazeta do Povo, em 15/06/2025, intitulada Polícia suspeita que mais espiões russos estão criando disfarces e operando no Brasil, novas peças no quebra-cabeça foram adicionadas, entre elas a suspeita de que tal operação possa ser mais antiga do que o se sabe a partir de 2022. [3]

Sem contar que um diplomata russo acreditado no Brasil foi identificado pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) atuando como espião, conforme mencionado pela Gazeta do Povo, novos detalhes sobre as circunstâncias em que o nome do país vizinho Uruguai aparece neste assunto permite inferir a existência de alguma rede de conexão entre “handlers”, pois, na prática, espiões pertencentes a Serviços de Inteligência não operam sem um controlador.

Luis F. Baptistella – diretor da Bravus Consultoria e autor do livro Contra & Inteligência 4.0

[1] Artigo The Brazilian Candidate: The Studious Cover Identity of an Alleged Russian Spy. Disponível em: https://www.bellingcat.com/news/americas/2022/06/16/the-brazilian-candidate-the-studious-cover-identity-of-an-alleged-russian-spy/. Acesso em: 19 out. 2023.

[2] Disponível em: https://www.nytimes.com/2025/05/21/world/americas/russia-brazil-spies-deep-cover.html. Acesso em: 24/05/2025.

[3] Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/policia-suspeita-que-mais-espioes-russos-estao-criando-disfarces-e-operando-no-brasil/. Acesso em: 16/06/2025.

Compartilhe!

LinkedIn
WhatsApp